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Introdução
Um grupo é um envelope que faz indivíduos ficarem juntos.
Enquanto esse envelope não está constituído, ele pode ser considerado
agregado humano, não há grupo. Qual é a natureza desse envelope? Os
estudiosos enfatizam que a rede de regulamentos implícitos ou explícitos,
de costumes estabelecidos, de ritos, de atos e fatos com valor de
jurisprudência, as atribuições de lugares dentro do grupo, as particulares
da linguagem falada entre os membros e conhecida somente por eles. Essa
rede, que contém os pensamentos, as palavras, as ações, permite ao grupo
constituir um espaço interno e uma temporalidade própria. Desse ponto de
vista toda vida de grupo está presa numa trama simbólica: é ela que o faz
perdurar.
O envelope grupal se constitui no próprio movimento da
projeção que os indivíduos fazem sobre ele de suas fantasias, de seus
imagos, de sua tópica subjetiva, (isto é, da forma como se articular, nos
aparelhos psíquicos individuais, o funcionamento dos subsistemas deles : Id,
Ego, Ego Ideal, Superego, Ideal do Ego). Pelo lado interno, o envelope
grupal permite o estabelecimento de um estado psíquico transindividual que
proponho chamar de mesmo de grupo. É o continente dentro do qual uma
circulação fantasmática e identificadora vai se ativar entre as pessoas. É
ele que torna o grupo vivo.
1) As instâncias psíquicas nos grupos segundo Freud
O aparelho psíquico individual se protege e se serve dos
estímulos externos e das pulsões internas organizando um espaço mental
diferenciado em zonas. Essas são respectivamente o sítio das diversas
instâncias que Freud inventariou o Id, o Ego Ideal, o Superego, o Ideal do
Ego, o Ego, ele próprio dividido em sistema percepção-consciência e em
mecanismos de defesa inconsciente.
O Ide inconsciente se faz envelope de corpo biológico, o Ego
se faz envelope do aparelho psíquico denominado pelos processos
inconscientes, o sistema percepção-consciência se faze envelope do Ego,
tudo isso constituindo uma série limitada de encaixes de “caroços” e “cascas”.
2) O método psicanalítico e suas regras nas situações de grupo
A psicologia das massas de Freud e a Psicologia do grupo
No ano de 1921, Freud publicou um estudo bastante amplo
sobre a “psicologia das massas e a análise do eu”, que, no nosso contexto, merece
atenção e nos pode ensinar sobre psicologia do grupo.
Para Freud, o indivíduo é o “verdadeiro homem” nos grupos, o
homem, misteriosamente, vai perdendo algo de suas potencialidades.
Freud esclarece a formação de grupos através da teoria da
libido. Quando os homens, ao se unirem em grupos ou massas, forças
libidinosas de ligação, devem estar em jogo. No texto de Freud, isso é
ilustrado com dois exemplos de massas altamente organizadas, duráveis e
artificiais, a saber: a igreja e o exército.
A causa da coerência dessas duas massas está nos
relacionamentos de seus membros com os chefes. Não há ligação positiva
primária dos homens entre si, no seu estado normal, eles sentem uns para os
outros apenas, inveja, rivalidade, agressividade e ódio.
Para esse antagonismo (supostamente primário) emudecer, deve
ser supor processos psíquicos de natureza libidinosa. Freud julga que os
componentes da massa estão de tal maneira orientados para sue chefe que
aceitam sua ordem como decreto irrevogável. Pelo seu “amor” ao chefe, estão
até dispostos amarem-se uns aos outros.
Dá-se, evidentemente, uma identificação com o chefe. Esse
processo tem a sua origem, por exemplo, no relacionamento pai-filho. O
menino gostaria de ser igual ao pai; esse é seu modelo. Haverá assimilação
e imitação, identificação, causando ligações fortíssimas.
A psicanálise é obrigada a supor que existe no “eu” da
pessoa humana, uma curiosa instância que exerce a auto-observação, a função
de consciência moral, a censura dos sonhos e o recalque, a saber, um “ideal
do eu”, chamado também supereu ou superego. Esse superego contém resíduos
de relacionamentos infantis “imagem de pai e mãe”, mas também elementos de
reação contra os próprios impulsos infantis, por demais incontroláveis e
intensos. De qualquer maneira, “o ideal do eu” possui significado
normativo, já que serve de critério para tudo o que a pessoa faz ou deixa
de fazer e inclusive para o seu sucesso na vida.
O superego pode se tornar um fardo pesado para o indivíduo;
na melancolia, na tendência ao suicídio, no arrependimento e no remorso, o
superego dirige-se ocasionalmente contra o eu, que por isso, não raras
vezes, fica satisfeito, quando consegue fazer silenciar aquele mau
conselheiro.
Mesmo na massa, o “ideal do eu” parece obscurecer-se; em outros
termos, as pessoas julgam—se perto de sua realização pelo fato de se
sentirem investidas do poder de todos os componentes da massa. Geralmente,
o chefe torna-se, então, o representante de todos os superegos, que nele se
fundem e se unem. O “ideal do eu” de todas estas, estão, por assim dizer,
“concretizados”. Isso dá entusiasmo, aumenta as forças, e todos se sentem
elevados acima de si mesmos. No nazismo, semelhante estado era
artificialmente mantido e perpetuado, a tal ponto que um dos mais
influentes sequazes de Hitler chegou a dizer: “eu não tenho consciência; a
minha consciência é o chefe (o Fühere”!).
Freud observa que os componentes da massa se encontram em
relação a seu chefe, num estado semelhante à hipnose ou ao namoro. Em
ambos, o superego ou ideal do eu está “guardado”.
Sendo substituído, seja pelo hipnotizador, seja pelo
parceiro do amor, isso resulta num empobrecimento do eu, mas ao mesmo
tempo, também uma unificação interna com aquela pessoa à qual agora todos
os valores são atribuídos, o que leva indiretamente a uma consciência de
valores mais intensificada. Freud resume esse processo da seguinte maneira:
Semelhante massa primária consiste em um número de pessoas
que colocaram um e o mesmo objeto no lugar de seu “ideal do eu” e que,
conseqüentemente, se identificaram umas com as outras no seu eu.
Dessa maneira, portanto, é explicado por que é que, na
massa, as pessoas são mais infantis, inertes, niveladas, intelectualmente
inibidas e emocionalmente desinibidas do que na vida individual. Para Freud,
dá-se na massa uma regressão psíquica do indivíduo, Freud postulava que a
massa seria apenas uma reedição de situações primitivas.
A massa se nos apresenta, portanto, como um renascimento da
horda primitiva. Assim, como o homem primitivo existe virtualmente em cada
indivíduo, assim a horda primitiva pode se restabelecer na base de qualquer
aglomeração de seres humanos; na medida em que a formação de massas domina
habitualmente os homens, reconhecemos na massa a continuação da horda
primitiva.
De acordo com a sua concepção autoritária do mundo e do
homem, o fundador da psicanálise pintou apenas situações de coletividades
humanas em que todos os indivíduos estão orientados para um líder ou seu
representante. Semelhantes grupos podem sem dúvida, surgir na terapia em
grupo; são, porém, uma degeneração daquilo que deveriam ser. Em grupos
autoritariamente dirigidos, acontece realmente que os analisandos renunciam
a seu “ideal do eu” , enquanto o dirigente do grupo é elevado ao nível de
“superego coletivo”. Mesmo aí não faltarão as rivalidades, os ciúmes, o
ódio e a agressão mútua, que o relacionamento com o terapeuta apenas
precariamente disfarçará. Tais grupos são também inclinados a elaborar,
tanto em relação com o mundo fora (como dentro do próprio grupo) certos
“sentimentos de massa”, como sejam: Discriminação dos outros, consciência
elitista não fundada e outras formas de estupidez coletiva.
Infelizmente, Freud cai no mesmo erro que seu predecessor Le
Bon “Psychologie der massen, 1895”, que descrê os grandes grupos humanos do
ponto de vista da diminuição da capacidade crítica e do correspondente
enfraquecimento da consciência dos valores. Para Le Bon, o que se manifesta
na massa é a alma da raça. A alma do homem primitivo que no indivíduo fica
reprimida e mal descoberta. Por isso, o homem na coletividade seria mais
primitivo, mais brutal, mais descontrolado. O indivíduo, então, submerge no
coletivo, através de uma espécie de contágio alastram-se sentimentos
obscuros, agressivos, mas também empolgantes, impulsionando para a ação. Le
Bon pinta pormenorizadamente, o comportamento intuitivo da massa, sua fé na
autoridade, alegando exemplos históricos. Seu livro é uma crítica da massa.
B) Concepções Freudiana dos grupos
Freud, em Psicologia Coletiva e Análise do Ego, depois de
criticar Lê Bon, propõe sua própria teoria explicativa dos fenômenos de
“multidão”. Ao mesmo tempo, se interroga sobre os próprios fundamentos da
relação com o outro.
Os componentes de uma multidão estão ligados por laços de
união de natureza libidinal que “atravessam a multidão de ponta a ponta”.
Laços de identificação, que levam cada um a se tornar
semelhante aos outros ou a torná-los semelhantes a cada um.
Enfim, a identificação mútua dos componentes repousa num
laço comum com o chefe do grupo (que pode ser uma pessoa, mas também uma
entidade impessoal, uma ideologia, ou uma crença).
O chefe substitui o ideal do eu dos participantes, que
produz a identificação mútua deles: “já entrevemos que o apego recíproco
existente entre os indivíduos que compõem uma multidão, deve resultar de
uma identificação semelhante, baseada numa comunidade afetiva; e podemos
supor que essa comunidade efetiva é constituída pela natureza do laço que
liga cada indivíduo ao chefe”.
O fenômeno primeiro, constitutivo da relação de grupo,
reside no laço de cada um com o chefe.
Como se estabelece? Propõe dois esquemas explicativos,
não-incompatíveis, embora não analise suas relações:
O primeiro é o da transferência. O chefe é o substituto de
uma imagem parental, principalmente a o pai, reproduz a relação parental, o
grupo social reproduz as famílias dos participantes.
Freud não se apóia exclusivamente na história individual,
mas num segundo esquema recorre à história coletiva
A Teoria Freudiana da horda primitiva, enunciada pela
primeira vez em Totem e tAbu, é retomada na Psicologia Coletiva e Análise
do Ego, supõe que numa “horda primitiva”, denominada por um pai autoritário
que se apoderava das mulheres, de forma exclusiva, em detrimento dos machos
jovens, dos filhos, o complexo de Édipo termina em parricídio. O
assassinato do pai pelos filhos, completado pelo canibalismo, conforme um
modelo de identificação primitivo, visando a incorporar a força o pai,
gerou o sentimento de culpa dos filhos, a subseqüente identificação de
ordem superior ao pai por via de idealização, e por esse desvio, a
identificação mútua dos filhos uns com os outros.
A identificação seria o mecanismo segundo, o qual o sujeito
interioriza um objeto libidinal e tende em seguida a se modelar a ele.
Assim, a resolução “normal” do complexo de Édipo do menino
leva, em conseqüência do medo da castração, a renúncia do objeto libidinal
primitivo, a mãe, bem como o pai; a interiorização do pai, transformado em
objeto de identificação, permite o apego a outros objetos libidinosos. A
nova relação de identificação com o pai pode então ser concebida como
substituto das relações anteriores, libidinal com a mãe, e hostil como o
pai. Os investimentos nos pais são abandonados e substituídos por
identificações. A relação de identificação aparece como um disfarce, é uma
diferenciação da libido (aliás, também como do instituto da morte).
Segundo Freud, a relação com o outro surge no seu fundo
original como uma negação radical da autoridade do outro. O outro nunca é
considerado, pelo menos primitivamente, senão como obstáculo ao desejo. O
outro é a projeção do meu desejo, e a relação com ele baseia-se na ilusão
de ser o outro feito à imagem do meio desejo, de que ele é necessariamente
o cúmplice ou o inimigo.
É uma relação do tipo instrumental; o outro só existe para
mim como substituto do objeto do desejo. O que põe e mantém definitivamente
em relação, é um desejo primitivo de posse e de destruição.
Freud esclarece o mecanismo: a identificação mútua dos
membros provém do fato de terem escolhido como ideal um objeto comum, o
chefe: “uma multidão primária apresenta-se como uma reunião de indivíduos,
que substituíram o ideal do ego por um mesmo objeto, o que teve por
conseqüência, a identificação de seus próprios egos”.
A origem dos elos de identificação dos participantes entre
eles é um elo subjacente ao chefe.
Relação de autoridade. A relação com o chefe resulta de uma
multiplicidade de transferências individuais, pelas quais o indivíduo
substitui seu ideal do ego, a imagem parental interiorizada, pelo ideal
coletivo, encarnado no chefe.
Portanto, a escolha do chefe postula de início que, em
alguns indivíduos, o divórcio entre o ego e o ideal do ego não é completo,
o que facilita a escolha do chefe. Basta que ele (o chefe), possua as
propriedades típicas desses indivíduos em estado de pureza e de nitidez
especiais, e que ele os impressione por sua grande liberdade libidinosa,
pra ser imediatamente designado chefe e revestido de grande poder, ao qual,
não fosse isso, jamais teria pretendido
c) Dider Anzieu
Um dos autores que pode nos aproximar da compreensão da
aplicação dos postulados da teoria psicanalítica ao estudo e compreensão
dos grupos em geral, é Didier Anzieu.
Anzieu parte da idéia de que em toda situação grupal, seja
de grupo de formação, grupo terapêutico ou grupo social real, os processos
inconscientes específicos são os mesmos. O aparato psíquico grupal existe e
está dotado das mesmas instâncias que o individual, mas não dos mesmos
princípios e funcionamento.
Segundo esta análise, tentando aplicar a teoria e a clínica
psicanalítica à compreensão dos grupos e recorrendo à conceitualização
freudiana da primeira tópica, enuncia o grupo como uma realização
imaginária de desejos. O grupo é, do ponto de vista da dinâmica psíquica,
um sonho. Esta situação grupal às vezes é vivida como fonte de angústia,
pois o grupo, como o sonho, como o sintoma é, em cada um de seus episódios,
a associação de um desejo e de uma defesa.
Esse desejo de realização imaginária, irrealizável,
proibido, é o desejo edipiano. Na sociedade o grupo é o lugar do perigo,
representado pela pulsão; daí ser, na representação social corrente, o
lugar da transgressão “autorizada”: seitas, clãs, práticas religiosas.
Constitui também arma privilegiada para o exercício das perversões.
Nos grupos as ações correspondem aos deslocamentos,
condensações e figurações simbólicas do desejo. Todo grupo tem seus
símbolos e seus mitos. É um lugar de intercâmbio entre inconscientes que
conduzem as construções fantasmáticas, às vezes fugazes, outras, estáveis,
às vezes paralisantes, outras estimulantes.
A vida psíquica em grupo se assume em trono de três
organizadores que se intricam e justapõem:
1. Fantasma Individual prevalecente de um dos membros.
2. Imagem parental dos integrantes.
3. Fantasmas originários.
Assim em sua forma de pensar, atuar e perceber a realidade
estão infiltrados pelos fantasmas individuais prevalecentes que emanam de
algum de seus membros e desenvolvem nos outros efeitos de contágio e
resistência.
A situação de grupo desperta angústias específicas edipianas
e pregenitais. A identidade do ego está posta em questão em todo grupo
caracterizado pelo anonimato de seus membros, cada ego sente o risco de
perder-se e decompor-se nas demais pessoas presentes.
O Ide participa da seguinte maneira: a pluralidade de
indivíduos evoca em cada membro a diversidade de pulsões libidinais e
agressivas. A pulsão de um grupo será muito mais presente e relevante, pois
não é mais a pulsão de um só.
Paralelamente a isto se constitui a pulsão de um ego a
princípio arcaico e corporal, depois apto para desempenhar as funções de
controle, de escolha com respeito às pulsões e à prova de realidade. Do ego
fictício do grupo se diferencia o superego do grupo e o ideal do ego
grupal.
Imaginemos um grupo no qual não houvesse um organismo
encarregado de exercer a censura, que não fosse dotado de um aparato
equivalente ao sistema percepção-consciência: para estas pessoas a
realidade psíquica seria mais importante que a externa. Este grupo
funcionaria na ordem da ilusão.
Anzieu propõe, segundo o modelo de psicanálise aplicada,
acrescentar a ilusão grupal às três formas sociais da ilusão descritas por
Freud desde Totem e Tabu: a ilusão religiosa, a artística e a filosófica.
A ilusão grupal é um estado psíquico particular que se
observa tanto em grupos naturais quanto nos terapêuticos e formativos “é um
“sentir-se bem juntos”.
É uma fase inevitável de todo grupo. O trabalho de
desprendimento com resposta à ilusão exige que se passe pela desilusão.
Sendo os processos inconscientes os mesmos nos grupos terapêuticos,
grupos naturais ou grupos de formação, os formadores não pode ser sem seu
desejo, e nesse desejo nos encontramos com dois motores humanos por
excelência: o desejo de dar vida e o desejo de dar morte.
Tanto na estrutura e na origem dos desejos, quanto nos
processos de formação, o dualismo pulsional está presente e em jogo. Uma
pulsão para aprender, que é emanação da pulsão de vida, está em conflito
permanente com as tendências destrutivas que administram a frustração, a
desilusão, sem as quais os sujeitos não têm necessidades de mudanças.
Todo grupo tem características aparentes e reais, a
ideologia é subjacente a elas.
Estar em um grupo não é somente encontrar prazer em ser
outro em ressonância com os fantasmas dos outros é poder despertar
possibilidades adormecidas, fazer viver experiências, ativar o intercâmbio
profundo entre os homens.
As trocas de atitude individuais e grupos dentro da sociedade
estão fortemente vinculados com condições ideológicas, científicas,
políticas, econômicas, sociais.
d)Teoria Geral da Circulação Fantasmática em grupo
Os trabalhos mais fecundos sobre os grupos são os que
prolongam as contribuições de Freud e Melanie Klein. Foram as práticas e a
teoria psicanalítica que nos esclareceram quanto às insuficiências da
abordagem psicossociológica dos grupos. Assim a seqüência deste trabalho
descreverá um certo número dos processos chaves do grupo nessa perspectiva
psicanalítica.
D.1 A ilusão grupal e as fantasias de quebra
Propõe-se chamar ilusão grupal ao sentimento de euforia que
os grupos em geral, os grupos de formação em particular, experimentam em
certos momentos, e que se exprime no discurso dos participantes do seguinte
modo: “Estamos bem juntos”, “somos um bom grupo”. O monitor não-analista é
tentado a participar dessa euforia gratificante para ele: se o grupo é um
bom grupo, não será prova de que seu monitor é um bom monitor?
O grupo funciona, assim no aparelho psíquico dos
participantes como Ego ideal.
A ilusão grupal, isso que o objeto-grupo é maciçamente
investido pelas pulsões libidinais, tem como contrapartida as fantasias de
quebra, onde esse objeto-grupo é investido pelas pulsões de morte em suas
diferentes formas. O par ilusão grupal-fantasias de quebra comanda as
oscilações “primárias” (no sentido psicanalítico) observações nos grupos.
D.2 O grupo, realização imaginária do desejo e da ameaça
Se o grupo produz a ilusão grupal, é devido a um processo
mais geral: o “grupo” fabrica ilusão pura e simplesmente. É a razão pela
qual sustentei a analogia entre o grupo e o sonho: o grupo, como o sonho,
preenche uma função de realização imaginária dos desejos não cumpridos, em
particular dos desejos proibidos. Ã sociedade, às instituições, lugares do
proibido quer-se, muitas vezes, opor o pequeno grupo espontâneo e informal
como lugar onde tudo seria permitido. As perseguições, cujas seitas,
comunidades, falanstérios, todas as formas de vida grupal independentes, não
deixaram de ser objeto, ao longo da história, da parte da sociedade global,
ilustram bem a representação fantasmática coletiva subjacente: todo o grupo
não controlado pelo corpo social representa um perigo de devassidões
perversas ou de conspirações homicidas. Por isso, o pequeno grupo funciona
nas representações coletivas como um lugar de realização imaginária das
ameaças do Superego e comum lugar de realização real das ameaças da
sociedade global.
Um exemplo de realização imaginária do desejo é fornecido
pelos projetos “utópicos” tão freqüentemente suscitados pelos grupos reais:
conquista de um tesouro escondido, de um lugar santo ocupado pelos infiéis,
realização de uma exploração, construção e defesa de uma cabana na floresta
para os bandos de crianças, etc. Pouco importa que a ilusão forjada pelo
grupo seja um devaneio desperto, ou que anime empresas reais nas quais
quantidades consideráveis de energia possam ser, na ocasião despendidas.
Através desses devaneios ou dessas ações, é uma ilusão que é perseguida, e
o prazer intenso que elas propiciam é o prazer de uma realização de desejo
ou modo da ilusão.
Como no sonho, os processos psíquicos primários, que no
grupo erigem um objeto como objeto do desejo comum aos membros, são o
deslocamento, a condensação, a figuração simbólica e a reinversão. Como no
sonho, a elaboração secundária rearranja os resultados dos processos
primários: nos grupos, isso se traduz, por exemplo, por uma produção de
relatos de valor mítico ou de construções intelectuais de natureza
ideológica, onde o objeto visado pelos desejos proibidos e comuns, sendo
mantido presente, é acentuado diferentemente, de modo que se significado se
veja desviado. Mitos e ideologias constituem, como mostrou René Kaës
(1197b, 1974b, 1980), as formações de compromisso específicas às situações
grupais ou sociais.
A produção de ilusão no grupo opera-se através de um
processo de encenação também análogo ao do sonho. Quer o grupo mantenha,
através de uma conversa atabalhoada, uma espécie de fantasia pré-consciente,
ou se engaje em atividades tomadas da realidade exterior, essa fantasia,
essas atividades constituem encenações que os participantes fazem a si
mesmos de seu desejo comum, sobre um pano de fundo que é o espaço
imaginário do grupo. Em outras palavras, existe em todo o grupo natural ou
artificial um processo que leva os participantes a se representarem algo
que, seguindo Ezriel (1950), poder-se-ia chamar de denominador comum de
seus fantasmas individuais, ou que seria a imago organizadora inconsciente
do grupo.
O sonho, como o sintoma, é uma formação de compromisso entre
desejos inconscientes e mecanismos de defesa, também geralmente
inconscientes. Um grupo, quando se torna uma realidade psíquica, negocia
compromissos entre um Id pulsional de grupo (que pode ser tanto agressivo
ou autodestrutivo quanto libidinal) e um Superego de grupo (que se erige em
controle dos pensamentos e dos afetos individuais).
D.3 O espaço imaginário do grupo
Do mesmo modo que o sonho noturno se desenrola sobre um pano
de fundo que é a imagem do corpo próprio irrealizado e talvez, mais
primitivamente ainda, a imagem da relação seio-boca, a fomentação
fantasmática num grupo desenvolve-se sobre um pano de fundo que é o espaço
imaginário do grupo.
No pequeno grupo informal, a disposição espontaneamente
adotada pelos participantes é em círculo ou oval. As imagens do corpo
subjacentes exteriorizam-se geralmente como se segue. Se for um círculo, o
grupo é uma boca, de onde sai o discurso coerente do grupo, ou uma
multiplicidade de bocas que se entre - devoram; o grupo pode também ser um
sexo feminino, buraco central que a palavra do monitor é o germe, os
participantes têm de nascer. Em todos os casos, a disposição circular ou
elipsoidal evoca nos interessados uma imago materna, enquanto a disposição
em fileira de tipo escolar tem por objetivo inconsciente impor a
prevalência da imago paterna.
No grande grupo, os participantes têm de início, tendência a
procurar um contato estreito com o que Turquet (1974) chamou “pele do meu
vizinho” e a se aglutinar numa massa compacta. Depois, sentam-se lado a
lado segundo uma linha fechada (ou segundo duas linhas concêntricas) cuja
configuração de conjunto varia entre a oval e o retângulo. Essa disposição
figura o interior de um espaço fechado. O vazio central é tão angustiante
que participantes e monitores experimentam a necessidade de diminuí-lo,
colocando mesas ou diante dos participantes, ou no meio, ou em ambos. Quer
ele seja marcado por um buraco central ou por uma mesa central, esse meio é
vivido pelos participantes como o lugar imaginário ocupado ou pelo objeto
mau no grande grupo, as pulsões destrutivas são projetadas não no exterior,
mas no centro), ou pelo grupo de monitores. Na reunião plenária, os
monitores, ainda que realmente dispersos na periferia do grande grupo,
estão presentes imaginariamente como corpo constituído (e aí também, no
início, como corpo do objeto mau) no centro do espaço (coração, germe). Se
estão sentados lado a lado, suscitam o que Kaës (1974c) descreveu como
fantasma dos monitores imbricados. O problema dos orifícios e de seu
funcionamento (necessidade de abertura rela das portas e das janelas em
certos momentos), o dos apêndices ou dos excrementos (participantes
sentando-se atrás e afastados dos outros) estão também presentes no
imaginário grupal.
O grande grupo é, então, vivido como interior do corpo da
mãe. O material correlativo diz respeito:
1. à exploração da superfície e do interior do corpo.
Algumas reuniões plenárias aparentam-se às viagens míticas descritas pelos
etnólogos nos ritos de cura ou de parto. Isso se aproxima das duas
formulações da demanda expressa pelos participantes dos seminários de
formação: a gente vem para curar, a gente vem para nascer. Esses dois
objetivos constituem um só: adquirir a autonomia em relação ao corpo
imaginário da mãe. Os participantes são ambivalentes para com esse
objetivo: defendem com ciúmes sua identidade pessoal, isto é, sua autonomia
pessoal em relação ao grupo-mãe; e, inversamente, sentem-se bem no pequeno
grupo como no ventre da mãe, e não querem sair de lá.
2. À aquisição do simbolismo como apropriação do corpo da
mãe e sublimação da angústia de sua perda.
3. À rivalidade das crianças (criança-pênis,
crianças-excrementos) no ventre da mãe, rivalidade destrutiva seja para
eles, seja para ela.
4. Aos fantasmas de pais unificados e de cena primária,
projetados sobre o grupo dos monitores.
D.4 A clivagem da transferência
Ângelo Béjarano (1971, 1976) chamou pela primeira vez a
atenção para clivagem da transferência, no sentidokleiniano do termo, nos
seminários de formação em que os participantes estão altamente reunidos em
vários pequenos grupos (grupos de diagnóstico e psicodrama) e num grande
grupo (reunião plenária).
A experiência mostra, de fato, que o pequeno grupo inserido
num seminário de uma semana conhece uma intensidade, no seu desenrolar e
nos seus efeitos, superior à obtida por um grupo de diagnóstico condensado
em três dias ou diluído em reuniões semanais durante um ano. A explicação
reside na dinâmica de transferência. A transferência positiva tende a se
concentrar em pequenos grupos; a transferência negativa, no grande grupo. A
fixação, na reunião plenária, das angústias de fragmentação e de
destruição, assim como de angústias persecutória ou depressiva, mantém no
grupo de diagnóstico e de psicodrama, os processos evolutivos ligados aos
avatares da libido: exploração das diversas problemáticas da sexualidade
pré-genital e genital, fenômeno de pareamento, relação com a autoridade,
com a lei, com a dupla proibição do incesto e do homicídio, intricação do
masoquismo e do narcisismo, sentimento de culpa e sua erotização, papel de
transgressão, diversidade e mobilidade das escolhas libidinais. Num
seminário, o pequeno grupo torna-se o local imaginário do prazer; o grande
grupo, o local imaginário da morte.
Não só na natureza, mas também o objeto da transferência é
diferente. No pequeno grupo, a transferência central incide sobre o
monitor, mas as transferências laterais dos participantes uns sobre os
outros são também ativas e significativas. Isso é devido ao fato de que,
muito depressa, num pequeno grupo, um conhece o outro. Existe também uma
terceira forma de transferência, muito mais difícil de captar, de analisar
e de interpretar, que é a transferência dos participantes (e a contratransferência
do monitor) sobre o pequeno grupo como objeto ou entidade própria.
Acontece diferentemente no grande grupo. Em primeiro lugar,
a transferência lateral é mínima. De fato, os participantes, pertencendo a
pequenos grupos diferentes, não ou quase não se conhecem entre si, em razão
de seu grande número de um lado, de sua implicação em seus pequenos grupos
respectivos no outro. Nossas observações nos conduzem até a hipótese de que
as transferências laterais no grande grupo sejam deslocamentos da
transferência central sobre os monitores. No pequeno grupo, em compensação,
a transferência lateral de um participante sobre um outro, mesmo sendo às
vezes um deslocamento em relação ao monitor, tem geralmente um significado
próprio às duas pessoas, objeto e sujeito dessa transferência, e é uma
tarefa do trabalho psicanalítico no pequeno grupo elucidar e verbalizar
esse duplo significado. Em segundo lugar, a transferência no grande grupo
visa o pequeno grupo de monitores no seu conjunto ou esse ou aquele monitor
em particular, mas considerado como membro da equipe interpretante.
A transferência sobre o grupo de monitores referencia-se
através da aparição espontânea dos seguintes temas nos discursos mantidos
em reunião plenária: monolitismo ou fragmentação do staff (isto é, a equipe
de monitores), sua coesão ou seus desacordos, seu autoritarismo ou seu
laissez-faire, seu saber ou seu não-saber, sua honestidade ou seu gosto
pela manipulação, sua heterossexualidade ou sua homossexualidade, sua
genitalidade ou seu polimorfismo perverso, os desejos e os prazeres
supostos dos membros do staff uns com os outros, a vontade do staff de
esconder esses desejos dos participantes (fantasia da cena primária), a
ausência de desejo do staff para com os participantes, seu desejo de
guardar os participantes no seu seio sem lhes permitir sair etc. Tudo isso
constitui o material específico da transferência no grande grupo.
A transferência no grande grupo preenche, assim, uma função
complementar à que garante no pequeno grupo. A análise da transferência dos
participantes sobre o grupo como objeto libidinal tornou-se muito difícil
no pequeno grupo pelo fato de que se trata do mesmo grupo, sujeito e objeto
da transferência. Por exemplo, a ilusão grupal tão freqüentemente
experimentada no seio do pequeno grupo, é dificilmente analisável dentro
desse pequeno grupo, mesmo se o monitor soube não se deixar levar por essa
ilusão. Um possível lugar de sua análise encontra-se no grande grupo. A
interpretação nesse caso pontuará a clivagem da perseguição e da
idealização ( a idealização do pequeno grupo, dos monitores, da dinâmica de
grupo).
D.5 O Ego, o grupo e a reorganização das identificações
Com o encadeamento regulado de antemão das diversas
atividades que compõem, com suas exigências de tempo e de lugar, com as
instruções que regem essas atividades e que são transposições das regras
psicanalíticas de não-omissão e de abstinência, o seminário de formação
apresenta-se na forma de uma instituição. Essa instituição funciona junto
aos participantes como uma garantia simbólica: eles podem se deixar ir
viver seu imaginário nos pequenos grupos, pois eles o vivem no quadro
simbólico instituído pelo seminário. René Kaës (1972) propôs distinguir na
grafia e na conceitualização, o Seminário(s) como instituição e ordem
simbólica e o seminário (s) como atividade concreta infiltrada pelo
inconsciente dos participantes.
A situação de grupo, cujos efeitos Freud (1921) comparou aos
da hipnose, mobiliza nos membros dois tipos de identificações imaginárias:
a identificação com o monitor, com o chefe como pai, com o ideal do eu; a
identificação projetiva e introjetiva dos participantes uns com os outros.
Como André Missenard (1969, 1971, 1972, 1976) mostrou no decorrer de trabalhos
sucessivos, as técnicas de grupo não diretivas põem rapidamente em questão
as identificações imaginárias individuais, e obrigam os participantes a
abandoná-las, ao preço de uma angústia de “quebra”, de um medo de mudar, do
sentimento de um risco de ficar louco. Se o monitor tem uma reação
contra-transferencial de loucura diante desse perigo, se ele dá, com a
intenção de socorrê-los, interpretações individuais aos participantes mais
perturbados por essa perda de seus referenciais identificatórios habituais
e inconscientes, longe de tranqüilizá-los ele lhes confirma o perigo em que
se encontram e a gravidade de seu caso, certifica-lhes, de certo modo, que
essa perda é real e irreparável, e precipita-os na descompensação que
queria lhes evitar. Isso justifica, aliás, a regra enunciada por Ezriel,
segundo a qual a interpretação tem de ser dada ao grupo, não a um
indivíduo.
A partir desse nivelamento grupal, em que mais ninguém está
individualizado, os participantes reconstroem, pouco a pouco,
identificações simbólicas que vêm substituir as identificações imaginárias
perdidas. Sempre segundo A. Missenard, numa primeira etapa, a identificação
de “um” com o “outro”, no modelo das relações especulares, permite a
reindividualização. A identificação narcísica com líderes ou com o monitor,
cuja posição se reproduz em espelho, faz parte dessa etapa. Os
participantes podem em seguida chegar a identificações mais
individualizadas, onde o desejo de cada um se manifeste em sua diferença e
em sua comunidade em relação aos desejos dos outros.
Nos grupos reais, diretivos, processos análogos funcionam,
mas de um modo ou mais lento ou mais sincopado. Se o chefe está sozinho
diante de uma multidão, ele provoca, em seu proveito ou em seu detrimento,
a convergência das identificações imaginárias sobre si. Em compensação, no
caso de uma organização, por exemplo, de uma empresa da alçada da vida
econômica ou social, a existência de um regulamento interior e de um
organograma constitui tal garantia simbólica, se pelo menos os chefes respeitando-o,
testemunham com seu exemplo que o reconhecem como tal. A construção de
identificações simbólicas torna-se então possível. Encontra-se facilitada
pelo papel de substituto identificatório entre os subalternos e os chefes
preenchido por responsáveis de nível intermediário.
Um pequeno grupo psicanaliticamente conduzido pode trazer
aos participantes uma experiência enriquecedora do narcisismo humano:
diversidade das formas, níveis de estruturação e modos de investimento do
Ego e do Si-mesmos; fragilidade narcísica própria a cada um e perigo
sentido ao seu questionamento; predisposição à ferida ou à raiva narcísicas
e aos contra-investimentos defensivos; jogo das identificações imaginárias,
projetivas, especulares, ideais, heróico-masoquistas, simbólicas; busca de
um narcisismo primário coletivo, etc.
Os indivíduos pedem aos grupos naturais de que fazem parte
uma segurança narcísica de base e a encontram eventualmente. Segundo as
particularidades e a gravidade dos déficits narcísicos de cada um, não é a
mesma experiência de grupo que permitirá uma superação relativa. Uma sessão
intensiva de alguns dias pode bastar para alguns; outros terão necessidade
de experiências de grupo repetidas ou alternadas com uma psicoterapia
pessoal; outros ainda só tirarão proveito ao final de uma participação
contínua, durante vários anos, de um slow open groupe (grupo parcialmente
aberto). Dispondo um quadro que, por seu dispositivo, por suas regras, pelo
estilo das interpretações, cria uma área tradicional no grupo, o ou os
psicanalistas que o conduzem chegam a garantir essa segurança narcísica: o
grupo se torna continente das pulsões, dos afetos, dos fantasmas que
circulam entre os membros; facilita a constituição de um envelope psíquico
que cada um pode interiorizar no lugar de um Eu-pele muito rígido, ou muito
furado, ou muito inconsistente. Além disso, os participantes têm ocasião de
reviver e de reencontrar, em relação aos outros, ao psicanalista, ao grupo,
os laços humanos fundamentais: o laço da boca com o seio (fantasma do
grupo-boca), e o laço da perseguição e da sedução quando se está em estado
de dependência (fantasma do grupo-máquina), o laço entre o exterior que
compreende e o interior que se sente reconhecido, o laço entre a coisa ou o
ato e o símbolo, etc. A análise transicional, que Winnicott descobriu
durante consultas terapêuticas com crianças, e que Kaës estendeu ao grupo
psicoterápico e formativo, faz do grupo uma estrutura de recepção, de
elaboração e de reparação das usurpações, dos traumatismos comulativos, das
rupturas sofridas atualmente ou mesmo outrora pelos sujeitos, e contribui
para restaurar neles a atividade de simbolização.
Decorre da posição de duplo apoio, descrita por Kaës e
própria ao aparelho psíquico grupal, que o grupo pode ser também utilizado
pelos participantes como uma prótese compensadora, ou como uma tela
defensiva, ou como um feitiche denegador, seja com respeito ao inconsciente
individual, seja com respeito à cultura circundante em seu aspecto de
inconsciente social ou no de seus valoes estabelecidos, de seus costumes,
de suas crenças, de seus ritos. Por exemplo, na medida em que pessoas
sofrendo de déficits narcísicos encontram num grupo um suporte analítico
importante, elas têm tendência a fazer gerir pelo grupo o tratamento de suas
dificuldades e a satisfação de suas necessidades – o que pode ser revelar
transitoriamente útil – e, se o psicanalista grupal não cuida, ao mesmo
tempo, de analisar essa utilização protética defensiva do grupo e de
favorecer o estabelecimento, nessas pessoas, de uma auto-escora pela
interiorização sobre seus recursos próprios, o grupo encontra-se impedido
de preencher suas verdadeiras funções formativas e terapêuticas, e as
pessoas em questão encontram-se expostas ao risco de descompensação depois
do fim do grupo, se sentirem esse fim como uma brusca retirada da escora,
equivalente para elas a uma ruptura catastrófica e aniquiladora.
D.6 Alguns outros fenômenos
A facilidade ou a dificuldades de comunicação num grupo
pareceram depender da ressonância ou das oposições entre a vida imaginária
inconsciente dos membros, isto é, de fenômenos sobre os quais não agem a
maioria dos métodos de discussão que pretendem melhorar as ditas
comunicações. A liderança perdeu a função privilegiada que lhe conferia a
dinâmica de grupo segundo Kurt Lewin, para se aparentar com uma formação de
compromisso análoga ao que é o sintoma em psicopatologia individual: ela
está, de fato, a serviço não apenas dos desejos comuns, ponto de vista no
qual se deteve a maioria dos autores não-psicanalistas, mas está também a
serviço dos mecanismos de defesa do EU; é mérito dos grupanalistas ter
chamado a atenção para o líder como porta-voz da resistência do grupo ou de
um subgrupo a desejos inconscientes comuns e latentes. O termo de afinidades
(simpatias e antipatias entre os membros) não escapou também à crítica
psicanalítica, pois ele recobre com uma mesma etiqueta pelo menos dois
processos muito diferentes, oura a identificação de um membro com tal
instância psíquica, percebida por ele num outro (mecanismo de defesa do
Ego, Superego, Ideal do Ego, Ego ideal), ora a transferência “lateral” de
um objeto interno de amor ou do ódio sobre um outro membro do grupo. O
clima de um grupo, suas produções, suas realizações, seus bloqueios estão
ligados às ressonâncias ou às discordâncias fantasmáticas subjacentes entre
seus membros ou entre subgrupos.
Roland Gori (1972a, 1974, 196) colocou em evidência
resistências particulares da parte dos participantes em viver uma
experiência de grupo psicanaliticamente conduzida. Interpõem entre o grupo
e eles um “saber prévio”. A utilização de uma palavra abstrata e
desencarnada tem como contraparte a resistência inversa: uma palavra em
grupo, tão próxima do corpo e dos afetos que não deixa lugar nem ao outros
nem ao pensamento. Falar por falar, para fazer volume, é uma outra forma de
resistência, a das “muralhas sonoras”.
Kaës (1971, 1980) formula a hipótese de que as formações de
compromisso assumam formas específicas nos grupos: são os mitos, as
utopias, as ideologias; os pequenos grupos não diretivos permitem
observá-los em estado nascente. Ele classifica as ideologias segundo a
posição do aparelho psíquico que se encontra implicada. As ideologias da
alçada do Ego ideal são de duas espécies: umas são persecutórias (luta
contra uma imagem de mãe devoradora projetada sobre a natureza, sobre a
cidade, sobre a sociedade, idealização da “causa”à qual nos dedicamos e
sobre a qual é projetada uma imagem de onipotência narcísica); as outras
são depressivas (nostalgia de um paraíso perdido, sentimento de culpa por
ter destruído o que era bom, negação das diferenças entre os seres
humanos). Só as ideologias provenientes do Ideal do eu dão testemunho da
passagem do aparelho psíquico à posição reparadora, à sublimação das pulsões
parciais, à ordem simbólica. A ideologia preencheria, no pensamento, o
mesmo papel que a produção do objeto-fetiche, na economia do desejo par o
perverso.
Kaës é assim levado a propor a hipótese de uma “posição”
ideológica nos indivíduos e nos grupos, e que seria intermediária entre as
posições persecutória e depressiva.
ANZIEU, Didier. O GRUPO E O INCONSCIENTE – O Imaginário
Grupal. Casa do Psicólogo, 1993.
FREUD, Sigmund. OBRAS COMPLETAS – Vol. I. Editora
Biblioteca, 1967.
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