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A
revalorização do homem frente à tecnologia
para o sucesso da nova empresa
1.
Coração e Máquinas
À
medida que a mecanização prossegue acelerada, a
relação humana fica abalada, rumo à própria
mecanização, aumentando a tendência de ver
o outro como objeto, instrumento da própria satisfação,
para atingir objetivos e prover satisfações. Há
um grande descompasso entre o progresso tecnológico e o
progresso social em termos de qualidade de vida.
A
estrutura organizacional burocrática adota uma forma rígida,
com cargos fixos, onde as pessoas são gerenciadas pelo
Departamento Pessoal, reduzidas a cadastros, números, índices.
O gerente é considerado o planejador, deliberador, controlador,
avaliador, guardião e protetor do status quo.
Os
sentimentos podem ser agrupados em 2 conjuntos:
a)
conforto, segurança, satisfação;
b)
frustração, ansiedade, impotência, inutilidade,
raiva, medo.
Quando
o indivíduo entra na organização, há
entusiasmo (que perdura por quanto tempo?). Aos poucos surgem
obstáculos, normas restritivas que reforçam procedimentos
rotineiros e punem comportamentos inovadores ou ousados, que trazem
dúvidas quanto às possibilidades de carreira e realização
pessoal. Surge a dúvida: permanecer ou sair? Se permanecer,
estagnação ou crescimento? Reconhecer uma oportunidade
e agir no momento certo é um atributo da personalidade,
da dinâmica pessoal.
E
qual é o preço do progresso? A qualidade de vida
não acompanhou a velocidade do avanço tecnológico.
O fato de podermos ser substituídos por uma máquina
causa um profundo impacto sobre nossa auto-imagem e auto-estima.
A alegria do artesão ao completar a obra, ao ver o produto
final acabado perdeu-se no percurso da modernização.
No ambiente competitivo, o indivíduo exige cada vez mais
de si, submetendo-se a esforços desmedidos que vão
comprometer sua saúde e sua produtividade, causando stress
(verificado principalmente no alto escalão).
Na
organização moderna, a máquina é mais
valorizada que a pessoa, onde fazer vale mais do que ser. Como
peças de máquina, as pessoas podem ser substituídas
por outras e a organização continuará funcionando
como deve.
Em
algum momento, o indivíduo começa a se questionar
"quem sou eu?". "Ser" significa um ato espontâneo
(o ato deliberado é o fazer). O aproveitamento do tempo
passou a ser uma obsessão (ex: almoço de negócios).
Os dias úteis são considerados os dedicados ao trabalho,
como se os demais fossem inúteis.
Na
organização atual o poder está relacionado
ao sucesso, sendo que o jogo para alcançá-lo assume
características sutis, onde os movimentos aparentam inocência,
objetividade e preocupação com o bem comum. As maiores
riquezas da organização são as pessoas que
nela trabalham.
2.
Luz e Sombra
A
empresa apresenta luz (tudo aquilo que focaliza, acredita, valoriza,
tenta incrementar) e sombra (tudo aquilo que ignora, desvaloriza,
tenta minimizar o impacto).
A
cultura organizacional provê orientações que
clarificam a missão, objetivos, estratégias, critérios
de avaliação e correção, permitindo
uma segurança psicológica que pode significar uma
resistência à mudança. As subculturas podem
coexistir de forma harmônica ou entrar em conflito, onde
muitas mensagens explícitas encerram outras implícitas
e em geral discordantes, significando a passagem do declarado
para o encoberto, da luz para a sombra organizacional (ex: cooperação
x competição).
Em
uma organização também figuram mecanismos
de defesa (repressão, projeção, introjeção
e identificação, negação, fixação
e regressão, deslocamento, racionalização,
sublimação). A teoria psicanalítica examina
o funcionamento da organização nos níveis
consciente e inconsciente (tanto individual quanto grupal), onde
a labormania pode ser considerada como sublimação
de impulsos inconscientes reprimidos, provendo uma forma socialmente
aceita para a canalização dos impulsos. A cultura
organizacional pode ser melhor entendida como um conjunto de elementos
racionais, conscientes e inconscientes. A teoria kleiniana de
relações de objetos sugere que a experiência
do adulto reproduz defesas infantis contra a ansiedade, através
dos mecanismos de defesa.
As
mudanças geralmente envolvem questões de identidade
e relações entre o eu e o não eu (os objetos
de transição ajudam a afirmar a distinção
entre o eu e o não eu). No processo de mudança organizacional
os consultores e assessores são usados como objetos de
transição, pois ajudam a manter o senso de identidade
e segurança psicológica.
Segundo
Bion, observam-se modalidades distintas nos grupos: emocionais
e de tarefa.
a)
tarefa: objetivos específicos, motivação
para alcançar as metas, trabalho de forma organizada, realística
e produtiva;
b)
emocionais: "suposto básico", que são
dependência, luta / fuga, acasalamento.
O
grupo de suposto básico dependência expressa a necessidade
de um líder poderoso, idealizado, o qual irá nutrir
psicologicamente e proteger o grupo.
A
modalidade luta / fuga significa uma defesa contra uma ameaça
/ inimigo, o qual se precisa combater ou fugir dele. Na luta a
reação geralmente é desencadeada quando ocorre
a desilusão pela figura do líder, que frustra as
expectativas do grupo, abandonando-o à própria sorte,
negando-lhe proteção e segurança. Na fuga,
ocorre a evasão para tarefas secundárias, o grupo
fica ativo, mas não na atividade que deveria enfrentar
e concentrar energias.
O
acasalamento faz emergir a fantasia de que algo / alguém
surgirá para salvar o mundo da confusão e da ansiedade
em que se encontra (a união dos membros que se sucedem
na liderança, com um estilo democrático e participativo
é bem acolhida, e estimula a criatividade e as emoções
tecnológicas).
Carl
Jung elaborou a teoria do inconsciente coletivo, que retém
e transmite a herança psicológica comum da humanidade.
Todos nós passamos por um processo de individualização.
No processo de autoconhecimento, pode ser revelado o inconsciente
pessoal. A sombra organizacional contém forças consideradas
negativas e por isso reprimidas, e também forças
não conhecidas que podem ser potencialmente vantajosas
como energia nova para a criatividade.
O
arquétipo refere-se a uma estrutura de pensamento e experiência
que permite compreender as ligações entre aspectos
conscientes e inconscientes da psique individual e do inconsciente
coletivo (ex.: heróis).
Os
componentes psicológicos emocionais, profundos e inconscientes
devem ser admitidos como reais e presentes nas interações
humanas, identificados e compreendidos.
3.
O Eterno Dilema
Toda
decisão envolve uma escolha, que gera uma situação
de tensão, de conflito interno. Os conflitos intrapessoais
podem se de dupla atração, dupla aversão
ou atração e aversão simultânea ("os
fins justificam os meios"). Nesta última nos deparamos
com a questão da ética. Depois de tomada uma decisão
de mudança, inicia o drama da implementação.
Aceitar ou resistir à mudança é o dilema
de cada indivíduo.
A
mudança gera uma percepção de ameaça
do status quo, que provoca desequilíbrio interno no intuito
de restabelecer o estado anterior de equilíbrio. As reações
ao desequilíbrio podem ser fisiológicas, psicológicas
e sociais.
A
resistência à mudança pode tomar uma forma
ativa ou passiva (operação tartaruga). Deve representar
um período transitório de adaptação,
em busca de recursos para enfrentar o desfio de uma situação
diferente, ambígua e insegura.
"O
reconhecimento da ignorância é o começo da
sabedoria" (Sócrates)
Uma
outra perspectiva de mudança é expressa na filosofia
taoísta, onde a não ação significa
agir espontaneamente, confiando na intuição, seguindo
a ordem normal da natureza. O vazio oferece espaço para
a criatividade, participação, realização
do ser humano. Do que adiantam as formas cheias que não
possuem flexibilidade para mudanças?
Yin
é a sombra. Yang é a luz. Nenhum deles é
bom ou mau por si. Bom é o equilíbrio dinâmico
entre Yin e Yang. A renovação / revitalização
é tão importante quanto a proteção,
a segurança do equilíbrio tranqüilo para pessoas,
grupos e organizações.
4.
Razão e Fantasia
A
sociedade atual valoriza em demasia o modelo racional, reforçando
a lógica e a consistência.
Há
2 modalidades de pensamento: o convergente e o divergente:
a)
convergente: várias idéias convergem para uma idéia
final conclusiva, uma solução ou uma conclusão;
b)
divergente: uma idéia abre-se em leque para muitas alternativas,
é a modalidade criativa do pensamento.
Mas
como inserir esta criatividade nos indivíduos da organização?
O próprio contexto organizacional, com sua cultura e seu
clima pode ser um obstáculo à criatividade.
A
brincadeira, como suspensão temporária das regras
racionais, permite explorar outras idéias e alternativas
de comportamento. O riso desanuvia o ambiente e clareia as percepções.
A
maior causa de stress está relacionada à escolha
do estilo de vida. Os fatores controláveis do stress podem
ser evitados por ações voluntárias, com a
conscientização da responsabilidade pessoal com
a saúde. Para os fatores não controláveis,
é preciso aprender a conviver com eles. Conhecendo os fatores
de risco, cabe à pessoa tomar decisões favoráveis
à sua saúde e sua vida. Os mitos e contos de fadas
podem expressar conflitos internos de forma simbólica e
até sugerir uma solução. Na organização,
a compreensão da linguagem simbólica abre novas
perspectivas de participar do universo mítico e superar
a divisão entre o objetivo e o subjetivo para poder lidar
com o misterioso, o fantástico e o assombroso (ex.: fofoca
permite rastrear as sombras e daí a energia que está
sendo canalizada).
Um
dos temas de estudo no desempenho das tarefas organizacionais
tem sido a definição dos papéis masculinos
e femininos. O estereótipo do homem representa a imagem
do líder e deliberador e a mulher como uma leal apoiadora
e seguidora.
Edwin
Olson estudou a relação entre os papéis organizacionais
e os estilos de liderança, bem como os conceitos de persona
(consciente - papéis gerenciais) e animus / anima (inconsciente).
Mitos
e contos de fadas, lendas, histórias alegóricas
e poesias transmitem modelos de conduta. Um grande desafio das
organizações e seus líderes é acolher
a não-racionalidade como aspecto legítimo da dinâmica
organizacional, admitir sua existência como parte inerente
dos processos administrativo-gerenciais e técnicos, contracenando
com os procedimentos da racionalidade, da lógica, da consistência
e da análise crítica.
5.
O Despertar dos Executivos
A
competência técnica é fundamental para o desempenho
eficiente, porém a tecnologia gerencial é determinada
pela dinâmica da personalidade. Na organização,
assim como na família, as diferenças individuais
não são bem compreendidas nem aceitas. As grandes
decisões estratégicas só serão implementadas
com sucesso se eles desenvolverem competência interpessoal
para liderança efetiva, comunicação, negociação
e participação em equipe. Como a completa atualização
profissional é tarefa sobre-humana, a ênfase passa
a ser a preparação metodológica, capaz de
aprender os problemas, fazer uma leitura ambiental apropriada
e saber buscar as informações e pessoas para implementar
os projetos. Conhecer os outros e a si mesmo e aceitar as diferenças
interpessoais possibilita aprender a conviver com a diversidade.
Jung
definiu as funções psíquicas em 4: pensamento
e sentimento, sensação e intuição.
Com base nas funções psíquicas de Jung, W.
Torbert elaborou a matriz de mentalidade dos executivos. Cientista:
observador racional, crítico. Teórica: intuitivo
racional, intelectual. Passional: intuitivo sensível, motivado,
apaixonado (líderes carismáticos). Executiva: observador
sensível.
Mitroff
(1983) classificou 4 arquétipos organizacionais:
a)
burocrático (cientista): estrutura hierárquica,
definição clara de papéis e limite de tempo;
b)
matriz (teórica): pesquisa e desenvolvimento (brainstrorming,
para posterior análise);
c)
familiar (executiva): empresas familiares (os dados objetivos
externos são analisados por influência de sentimentos
e ligações afetivas entre os membros da família
proprietária). Vários rumos podem ser tomados: algumas
se mantêm em ascensão de sucesso, enquanto os sentimentos
positivos prevalecem, a experiência dos mais velhos é
valorizada, aproveitada, renovada, enriquecida e complementada
pelos mais jovens; outras procuram um processo de modernização
e profissionalização em que os valores afetivo-emocionais,
os componentes ingênuos e naturais passam a ser substituídos
por itens objetivos, neutros, tecnológicos, que conduzem
à burocratização (e descaracterização)
da empresa; outras podem sofrer grandes crises internas, de disputas
filosóficas ou materiais, entre sucessores potenciais e
herdeiros, com riscos de enfraquecimento, deterioração,
cisão e extinção da empresa;
d)
orgânico / adaptativo (passional): pouca estrutura e clima
informal.
JULGAMENTO
PENSAMENTO SENTIMENTO
SENSAÇÃO
PERCEPÇÃO
INTUIÇÃO
A neurose representa uma luta contra si mesmo, que esgota as energias
sem levar a resultados correspondentes, restando pouca energia
para o prazer genuíno. Até que ponto a personalidade
neurótica dos membros e executivos do topo afetam o funcionamento
das organizações? Os estilos neuróticos mais
comuns foram estudados por Kets de Vries e Miller (1985), sendo
mostrados na tabela a seguir.
ESTILO
POTENCIAL NEGATIVO
POTENCIAL POSITIVO
Paranóide
Distorção perceptiva da realidade para confirmação
de suspeitas. Desconfiança generalizada. Perda da capacidade
de ação espontânea por atitudes defensivas
Percepção de ameaças e oportunidades, dentro
e fora da organização. Redução de
riscos, detectados precocemente
Compulsivo
Conformidade excessiva a regras e regulamentos. Medo de cometer
erros. Relações de dominação / submissão.
Dificuldade em ver o todo. Pouca espontaneidade.
Operações e controles eficientes. Perfeccionismo,
meticulosidade. Energia para o trabalho: "ir até o
fim". Obstinação.
Dramático
Reações exageradas, emocionais. Superficialidade,
sugestionabilidade. Exibicionismo. Alternância entre idealização
e depreciação dos outros.
Energia emocional elevada. Dinamização, revitalização
das atividades individuais e grupais. Uso (realístico)
das fantasias, sonhos, desejos. Criatividade organizacional.
Depressivo
Dificuldades de concentração e de desempenho. Inibição
de ação, indecisão. Pessimismo.
Enfoque mais realístico sobre forças e problemas
fora de controle. Alerta sobre mudanças possíveis
(esforços válidos) e incontroláveis (esforços
inúteis).
Esquizóide
Isolamento emocional, Frustração de necessidade
de dependência dos outros. Possibilidades de perplexidade
e agressividade.
Esfriamento do entusiasmo exagerado dos outros. Condução
a maior objetividade.
As
competências do executivo podem compor 3 conjuntos: das
funções clássicas, funções
de transição, funções futuras ou de
ponta. As competências costumam incluir as de ordem geral
conceitual, técnica e humana, as processuais (de planejamento,
organização, controle), as funcionais (produção,
vendas / finanças, pessoal, desenvolvimento de produto,
etc). As competências de transição fazem parte
de presente e do futuro provável, convertem-se em focos
e objetivos de desenvolvimento do executivo no caminho do futuro.
As competências de ponta começam a aparecer de maneira
ainda obscura nas tendências e projeções das
formas organizacionais do futuro (aprender a aprender, criar visões
compartilhadas, planejar e conduzir transições,
colaboração ambiental, análise organizacional,
configuração organizacional, potencialização
de si e dos outros).
Um
desempenho efetivo num ambiente complexo e competitivo requer
do gerente o uso de todos os seus recursos (de ordem física,
mental, emocional e espiritual), energias e talentos. A cultura
organizacional mantém-se e modifica-se nas pessoas e através
delas. O problema consiste em como conseguir mudar a mentalidade
dos membros da organização e por onde (quem) começar.
O desafio maior é iniciar o processo de mudança
em si mesmo. Conhecer-se e trabalhar em seu próprio desenvolvimento,
em primeiro lugar, para poder planejar e conduzir o desenvolvimento
de outros, constituem metas individuais e alicerces de liderança
sadia.
Adquirir
competências de transição e de ponta sob um
enfoque integrador, faz parte de um movimento pró-ativo
em direção ao futuro, recuperando a dimensão
humana na organização tecnológica e valorizando
o ser humano além das máquinas.
5.
A Organização Holográfica
O
princípio da organização holográfica
é colocar o todo nas partes, através da utilização
da redundância de funções, aumento da rede
de conexões e obtenção de generalização
e especialização simultâneas. Isto significa
a incorporação de funções extras a
cada uma das partes operacionais para que cada parte possa executar
mais funções ao invés de somente uma tarefa
específica. Os gerentes determinam somente o que é
imprescindível na execução das tarefas, incrementando
a flexibilidade interna e a criatividade, abrindo espaço
para responder com agilidade a modificações, dificuldades,
imprevistos ou novas ocorrências.
Se
a unidade organizacional for composta de membros parcialmente
heterogêneos, com pontos de vista e temperamentos distintos,
oferecerá maiores dificuldades ao líder quanto ao
processo de integração, bem como maiores possibilidades
de uma visão mais abrangente dos problemas, descoberta
de ângulos pouco considerados, análise mais fundamentada,
criatividade nas alternativas, realismo nas decisões e
produtividade global.
Fela
Moscovici
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