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1. A RUPTURA GALILEANA
Com a publicação em 1931 do artigo “O conflito entre os
modos do pensamento Aristotélico e Galileano na psicologia contemporânea”,
Kurt Lewin procura situar a psicologia ainda como pré-científica, portanto
pré-galileana e, portanto descontinuista.
A continuidade do pensamento do primeiro ao segundo conduz a
ruptura ou corte epistemológico designa o ponto do qual uma ciência começa,
ou seu ponto de não retorno, trata-se de rupturas intra-ideológicas.
Para Kurt Lewin os conceitos galileano de movimento e
repouso (classes, sistemas, histórico e estados) conduz a uma verdadeira
análise da totalidade dos fatos (considerando o gestaltismo) na essência
dos processos, o que não é possível no conceito aristotélicos, cujos
princípios encerra-se em si mesmos.
2. A TEORIA DE CAMPO
A teoria de campo pode ser entendida como um método de
análise das relações de causas e de construção cientifica. Sua compreensão
não é tão simples como pode parecer, pois ela não reduz um acontecimento a
elementos para em seguida considerá-los isoladamente (reducionista). Mas
também não podemos considerar que qualquer acontecimento é a resultante de
uma multiplicidade de fatores. Os atributos envolvidos, segundo Lewin são:
a) um método de construções e não de classificação;
b) interesse pelos aspectos dinâmicos dos acontecimentos;
c) perspectiva psicológica e não física;
d) análise de toda a situação;
e) distinção entre problemas sistemáticos e históricos;
f) representação matemática do campo.
3. CAUSALIDADE HISTÓRICA E CAUSALIDADE SISTEMÁTICA
Em 1922, Lewin publica um artigo em que analisa a noção da
Física e da Biologia e termina por elaborar um termo chamado de
Genidentidade. “Pois a física antes de tudo define seus objetos por sua
posição como parte inicial, final e intermediária de um processo”. Isto
leva Lewin a estabelecer conceitos sistemáticos e históricos de causalidade
(fatos presentes e fatos passados, a gênese histórica e sua dinâmica da
situação presente refletida no comportamento).
O aspecto sistemático leva a teorização sobre sistemas
abertos e fechados no campo psicológico e a constituição de uma perspectiva
temporal do campo desempenhado pela dimensão de realidade-irrealidade.
4. A PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICA E O ESPAÇO DE VIDA.
Para os gestaltistas, O método fenomenológico consiste numa
descrição sistemática da experiência imediata, visando a apreensão de sua
estrutura essencial. Tal atitude implica numa suspensão de todo e qualquer
pressuposto explicativo do fenômeno não devendo, portanto, ser confundida
com o método introspectivo que tem por finalidade analisar a experiência
imediata em sensações ou elementos. As idéias fundamentais da teoria da
Gestalt são o fundamento de todas as investigações do campo da vontade, da
afetividade e personalidade, é por ele que Lewin conceitua o “espaço de
vida”.
Lewin define o espaço de vida como a totalidade dos fatos
(inclusive os processos somáticos) que determinam o comportamento do
individuo num certo momento, isto inclui a pessoa e o meio, e representa a
totalidade dos eventos possíveis.
O meio físico e social é considerado psicológico enquanto
percebido pela pessoa e tal como é visto por ela.
A função da abordagem fenomenológica é permitir a elaboração
de conceitos que expressem adequadamente o fenômeno que se pretende estudar
e não teorizar.
5. ESTRUTURA E CAMPO.
A noção de estrutura em psicologia distingue-se em dois
aspectos:
1) Epistemológico, em que a consideração de seu objeto de
estudo faz parte de um sistema de correlações como uma das características
básicas de uma abordagem estrutural em ciência utilizando um formalismo
matemático que lhe permite enfocar a estrutura em função de um modelo
matemático, geométrico ou dinâmico de relações estruturais;
2) A noção de estrutura pelo ponto de vista ontológico,
quando consideramos a própria realidade estudada, não metodológica, mas
comportamental, tal como ela é.
A teoria de campo de Lewin preocupa-se em mostrar como uma
conduta orientada inicialmente para um objetivo, numa direção determinada
pelo objetivo, se especifica e se diferencia durante uma experiência que a
coloca em contato com obstáculos e caminhos.
Um dos maiores avanços realizados pela psicologia social
decorrente da transposição da noção de campo psicológico para campo social.
Transportando para dinâmica dos grupos a visão
estruturalista da psicologia individual, Lewin concebe a noção de campo
social como sendo o grupo e seu ambiente, tal como ele concebia o campo
psicológico como formado pela pessoa e seu ambiente. Um grupo para Lewin,
não faz sentido pela afirmação de que um grupo é constituído pela soma de
seus membros. A característica essencial de um grupo não é, como na classe,
a semelhança de seus membros, mas a interdependência dinâmica entre eles,
isto significa dizer que o grupo é um todo dinâmico e que quaisquer
mudanças em uma sub-parte modifica o estado de todas as outras sub-partes.
6. A PSICOLOGIA TOPOLÓGICA
Os conceitos matemáticos podem ser aplicados em psicologia
somente se forem coordenados corretamente com conteúdos psicológicos que
devem ser definidos através de procedimentos observáveis. Os conceitos
matemáticos são mais apropriados do que quaisquer outros, porque representam,
com um grau de univocidade muito maior do que a linguagem comum, uma
situação.
A topologia é um ramo quantitativo da matemática que trata
das relações espaciais que podem ser estabelecidas em termos de parte e
todo. Seu objetivo fundamental é a análise das propriedades das figuras
geométricas que se mantém, mesmo quando estas figuras são deformadas a
ponto de se alterarem todas as propriedades métricas.
Dois conceitos são fundamentais, a Região Psicológica e a
Locomoção Psicológica, tanto uma quanto a outra são utilizadas nas
investigações psicológicas e suas posições.
Três tipos de mudanças estruturais são propostas:
1. A diferenciação: em comportamento social o processo se
caracteriza pelo aumento do número de pessoas com que se mantêm relações
sociais e pelos tipos destas interações (amizade, dependência e liderança)
superficiais e profundas;
2. A Integração: Oposto a diferenciação, consiste na
organização do comportamento, principalmente em situações de grande tensão
emocional, cuja conseqüência seria homogeneização da conduta no sentido
regressivo, e, portanto, menos diferenciado;
3. A Reestruturação: Ocorre onde o número de sub-partes
permanece o mesmo, sendo que as posições relativas são alteradas.
7. O ESPAÇO HODOLÓGICO
O espaço Topológico representa algumas restrições para
representar problemas psicológicos dinâmicos que incluem conceitos de
direção, distância ou força, sendo que este último implica em noções de
direção, intensidade e tamanho que a topologia não pode representar.
A topologia pode ser considerada de extrema utilidade para
representar problemas de estrutura e posição num campo psicológico, mas
insuficiente no que se refere a problemas dinâmicos, desta forma Lewin
denominou uma geometria de “espaço hodológico”.
O conceito de força está diretamente ligado à causa do
comportamento. Lewin considera que várias teorias psicológicas sobre as
causas do comportamento, apesar de diferirem entre si, contêm a tese de que
o comportamento é causado por entidades dirigidas. “As forças psicológicas”
seriam, portanto, vetores.
“À distância e a direção entre dois pontos A e B dependem do
modo de locomoção (andar, pensar, falar, etc.) e do principio de escolha
concernente ao caminho (o mais rápido, o mais curto, etc.). Isso significa
dizer que o conceito de direção de A e B no espaço hodológico não possui um
sentido unívoco senão na medida em que se encontre um principio de escolha
(valência – Minimum/Máximo) ou sem escolha, que neste caso possui valor
principal. O critério de escolha não será arbitrário, mas dependerá de
circunstâncias de momento, tais como a natureza do caminho, a necessidades
do individuo e sua própria situação do momento”.
8. O CONCEITO DE FORÇA PSICOLÓGICA
O conceito de “Força Psicológica” se refere aos fatos
dinâmicos considerados como “causas” do comportamento. “Força” não é um
conceito geométrico, mas dinâmico, designa fatos que não podem ser
observados, mas representados entre as relações observadas.
Segundo Lewin, uma locomoção atual pode ser relacionada
apenas a totalidade das forças que atuam numa dada região, num determinado
momento, isto é, a resultante das forças e estas podem ser impulsivas ou
frenadoras.
A valência, isto é, a propriedade que uma região possui de
atrair ou repelir o individuo, pode ser devida ao mais variados fatores,
tais como fome, estado emocional, condição social, etc. “Uma região O que
possui uma valência VA (O) é definida como uma região do espaço de vida de
um individuo P que atrai ou repele este individuo”. Valência não é força.
Importante citar, dentro do conceito de força psicológica a
questão do Equilíbrio quase estacionário, onde “Uma pessoa ou um grupo não
são uma realidade estática, mas um processo, um fluir, que mantém certas
características estruturais constantes, por um período grande de tempo,
apesar de sua continua transformação”. Um grupo, diz Lewin, deverá,
portanto ser estudado como um processo quase-estacionário, contudo, duas
questões precisam ser distintas nos processos quase-estacionários:
1) Por que nas circunstâncias presentes, o processo se
realiza neste nível particular?
2) Quais as condições para mudar as circunstâncias
presentes?
Quando tratamos do problema da mudança, é necessário
distinguirmos entre “ausência de mudança”, porque não houve modificação nas
condições determinantes da situação e “resistência à mudança”.
O conflito é uma situação caracterizada pela oposição de forças de igual
intensidade. Lewin cita três tipos básicos de conflitos:
a) quando uma pessoa se encontra entre duas valências
positivas e tem que escolher uma delas;
b) quando uma pessoa se encontra entre uma valência positiva
e uma valência negativa;
c) quando uma pessoa se encontra entre duas valências
negativas.
As ações decorrentes do conflito podem expressar-se na
relação recompensa-punição.
Lewin afirma que as forças psicológicas não afetam
diretamente o sistema motor da pessoa, mas sim as regiões intrapessoais,
ações não mecânicas e sim “motivacionais”.
Para que possamos entender as forças psicológicas, temos que
considerar não apenas a estrutura e as propriedades do meio, mas também as
da pessoa.
A psicologia tem de considerar o espaço de vida como um
“campo’ e não como um conjunto de fatores dinâmicos, dentre destes fatores
Lewin destaca”:
1) a estrutura cognitiva do meio;
2) as valências;
3) as forças
Dentre os fatores básicos das pessoas, ele considera:
1) a estrutura da pessoa;
2) a tensão
Um estado de equilíbrio não implica em ausência de tensão,
sempre que houver uma necessidade psicológica, haverá um sistema de estado
de tensão no individuo.
9. DINÂMICA DO CAMPO PSICOLÓGICO
O conceito de campo psicológico supõe que tudo aquilo que
afete o comportamento num dado momento, deve ser representado como parte
integrante do campo existente naquele momento, uma realidade
fenomenológica.
O campo psicológico é o que se denomina de “espaço de vida”
considerado dinamicamente, isto é, a totalidade dos fatos coexistentes e
mutuamente interdependentes, compreendendo tanto a pessoa como o meio.
Quando dizemos, portanto que o comportamento depende do
estado da pessoa e de seu meio, pessoa P e meio M, têm que ser considerados
como variáveis mutuamente dependentes ou, em outras palavras, como uma
constelação de fatores independentes.
A estrutura do espaço de vida se refere às posições que as
partes mantêm entre si. Uma de suas condições básicas para se determinar a
estrutura do espaço de vida, é a de se estabelecer a posição da pessoa
dentro dele. A importância desta determinação está ligada ao fato de que o
comportamento pode ser visto como uma mudança de posição da pessoa ou como
uma mudança de estrutura.
As mudanças de estrutura dependem de fatores dinâmicos que
permitem maior o menor locomoção (fluidez, elasticidade, plasticidade).
Ecologia psicológica – Lewin confere muita importância à
zona de fronteira. Denomina de “ecologia psicológica”o estudo das relações
entre as variáveis psicológicas e as variáveis não psicológicas (estas
operando na zona de fronteira).
A primeira análise de campo é feita do ponto de vista de uma
ecologia social, isto é, através de fatores não-psicológicos geográficos,
de comunicação, enfim, de limitações externas que se impõe ao grupo ou ao
indivíduo, tanto o processo perceptivo quanto a execução em ação estão
relacionadas ao mundo físico e social que afetam esta zona limítrofe do
espaço de vida.
A noção de campo não é originária em Lewin e sim em Kohler,
inicialmente aplicada ao processo perceptivo, esta noção foi re-elaborada
em Lewin através do conceito de tensão e aplicada a todo o comportamento
psicológico.
Uma necessidade corresponde a um sistema de tensão da região
interna da pessoa, de tal modo que a sua satisfação corresponde à
diminuição da tensão desse sistema.
Para Lewin, a valência de uma atividade ou de um objeto está
relacionada à sua possibilidade de satisfação de uma necessidade, o que não
implica na identificação entre valência e satisfação, pois assim como há
tarefas que possuem valência positiva e não são acompanhadas de satisfação
quando terminadas há outras que apesar de possuírem valência negativa podem
produzir satisfação. O estado das necessidades afeta fundamentalmente a
estrutura cognitiva do espaço de vida, tanto a do presente como as do
passado e futuro psicológicos e seu efeito dependem da intensidade da
necessidade e da fluidez das áreas correlatas do espaço de vida.
Essa tensão é descarregada se o objetivo é alcançado. A
fluidez aumenta à medida que passamos do nível de realidade para o nível de
irrealidade.
A satisfação de uma necessidade pode ser realizada tanto
alcançando o objetivo original como um objetivo substituto. Freud deu
enorme importância à satisfação no nível da fantasia, principalmente
através do sonho.
Lewin conclui que o mais fundamental e mais geral efeito de
uma necessidade é a tendência a mudar a estrutura do meio. A necessidade conduz
a uma mudança do meio tanto através de uma reestruturação cognitiva como
através de uma mudança da estrutura por meio da locomoção.
10. CAMPO SOCIAL
São os seguintes significados que um grupo pode ter para o
individuo:
O grupo é um terreno sobre o qual a pessoa se sustenta. A
estabilidade ou instabilidade do comportamento do individuo depende da sua
relação com o grupo. Quando sua participação está bem estabelecida, seu
espaço de vida se caracteriza por uma estabilidade maio do que quando ela
não está bem definida;
O grupo como instrumento. O individuo aprende desde cedo a utilizar o grupo
como um instrumento para satisfazer suas necessidades físicas e sociais.
Quando adulto, seu status social é um instrumento importante nas suas
relações profissionais, sociais, familiares, etc...
O grupo como uma totalidade da qual o individuo é uma parte. Uma mudança na
situação do grupo afeta diretamente a situação do individuo. Caso uma
ameaça recai sobre o grupo, o individuo se sentirá também ameaçado, assim
como sua segurança e seu prestigio aumentam ou decrescem na medida em que o
mesmo acontece com o grupo.
O grupo como parte do espaço de vida. Para o individuo, o grupo é parte do
espaço de vida em que ele se movimenta. Se considerarmos que o espaço de
movimento livre de uma pessoa se caracteriza por uma reação circundada por
outras que não lhe são acessíveis, será fácil compreendermos a importância
da determinação dse sua posição dentro do grupo e as possíveis mudanças que
este possa sofre. Uma mudança de posição dentro do grupo pode acarretar o
acesso a novas regiões, assim como o surgimento de novas barreiras.
Entrar num grupo social novo pode significar algo muito semelhante a ser
jogado num campo cognitivamente não estruturado, ser forçado a manter-se num
solo móvel e não saber se esta fazendo “a coisa certa”.
Assim como o individuo e seu ambiente forma um campo
psicológico, o grupo e seu ambiente formam um campo social. O conceito de
campo social abraça a dinâmica e as estrutura deste espaço. A conduta de um
grupo será, então, explicada em função de forças objetivas que decorrem da
própria situação no momento.
O campo social é uma totalidade dinâmica estruturada em
função da posição relativa das entidades que o compõe. O comportamento
social resulta da inter-relação destas entidades tais como: grupos,
sub-grupos, barreiras, membros, canais de comunicação, ou seja, da
distribuição de forças em todo o campo.
A mudança de um hábito social implica na criação de
condições que permitam romper o nível de equilíbrio de um processo
quase-estácionário. Há, no entanto uma resistência por parte do grupo
contra a alteração de seu estado de equilíbrio. Esta resistência é interna
ao próprio grupo e se traduz em termos de “hábitos sociais”.
Os hábitos devem compreendidos como resultado de uma
dinâmica de forças abarcando o grupo e seu contexto. A fonte de “hábitos
sociais” é a criação de um campo de força adicional pela constância
histórica que tenderia a manter o nível atual do sistema. Quanto maior for
o valor social de um padrão do grupo, maior será a resistência a um
afastamento desse nível.
Uma das maneiras de se diminuir a resistência à mudança é
provocando-se uma diminuição na intensidade do valor padrão do grupo. Isto
se aplica ao individuo enquanto participante deste grupo. Se os valores do
grupo permanecerem os mesmos, a resistência do individuo será muito mais
forte do que se os valores do próprio grupo forem alterados.
11. PERSONALIDADE, ESTRUTURA, DINÂMICA E EVOLUÇÃO
O estudo da personalidade, segundo Lewin, envolve três
perspectivas:
A estrutural, implicando numa representação espacial e
descritiva do espaço de vida, distinguindo pessoa e meio e as posições
relativas das regiões que os constituem;
A dinâmica, através da qual procura-se explicar o que ocorre nessa
estrutura em termos de campos de forças;
A evolutiva, analisando o desenvolvimento dessa estrutura dinâmica e os
fatores determinantes.
O espaço de vida como um todo é uma região do espaço que inclui as
variáveis psicológicas e se separa do meio não-psicológico por uma
fronteira que é a área de incidência das variáveis não-psicológicas
(físicas, sociais, biológicas).
O espaço de vida é um espaço estruturado que não pode ser
dividido infinitamente em partes cada vez menores. Ele poderá ser dividido
em regiões e estas em sub-regiões ou células. Uma célula é uma unidade
estrutural que não poderá ser dividida, cujas características são de uma
“gestalt” e assim qualquer fragmentação que lhe seja imposta destruirá suas
propriedades estruturais.
O meio geográfico é o meio físico considerado
independentemente do percebedor e possuindo características que se
revelariam idênticas sempre que fossem repetidas as condições em que se
deram.
Ao meio enquanto percebido Koffka denomina de meio fenomenal
ou meio comportamental.
“Real é que produz efeitos” afirma Lewin, e o que produz
efeitos não é o meio físico, mas o comportamental. Esta afirmação não deve
ser compreendida como uma negação da causalidade do físico sobre o
psicológico. A influência que o meio físico exerce sobre o psicológico
decorre da percepção do meio físico (fenomenal) e que, portanto tem
influência sobre o comportamento.
Quando Lewin se refere a forças, tensões, sistemas, etc...
Ele está admitindo implicitamente a noção de energia. O modelo utilizado
para explicar a dinâmica da personalidade é o termodinâmico, o mesmo
utilizado por Freud. Admite ele um estado de equilíbrio entre a pessoa e o
meio, que uma vez rompido provoca tensão e esta conduz a locomoção, cuja
finalidade é restaurar o equilíbrio rompido.
A procura de equilíbrio não implica, necessariamente, em
redução de tensão, mas pode significar também procura de tensão. Em outras
palavras, há um nível de energia considerado ótimo para o organismo: se
este nível é ultrapassado, surge uma tendência a reduzir a tensão; no caso
contrário, surge a tendência para se chegar até ele, isto é, uma procura de
tensão.
Quanto menos resistentes forem as fronteiras, mais
facilmente uma tensão se escoará ou mais facilmente uma necessidade será
substituída por outra.
Lewin não admite que o processo de desenvolvimento apresente
descontinuidades de modo que se possa falar, especificamente de etapas ou
estágios, diferentes comportamentos podem ser agrupados sob vários
aspectos:
1. Variedade de comportamento a medida que as atividades vão
se tornando mais variadas o comportamento emocional também se diferencia e
sua expressão se torna mais específica;
2. Organização do comportamento em face de variação,
paralelamente a diferenciação ocorre uma estruturação, mais precisamente a
conexão das unidades e sub-partes do comportamento devido a um propósito ou
a busca de um objetivo;
3. Extensão das áreas de interesse das atividades juntamente
com o aumento do espaço de vida, produz-se uma ampliação de sua perspectiva
temporal, isto é, ao invés de viver apenas no presente imediato, passam a
influir também na sua conduta o passado e o futuro psicológicos.
4. Interdependência do comportamento decorrente da crescente
diferenciação do espaço de vida em sub-partes relativamente separadas,
porém organizadas e integradas.
5. Grau de realismo. Uma característica do desenvolvimento é
a substituição de uma visão subjetiva e fantasiosa da realidade por uma
visão mais realista.
Lewin afirma que podemos considerar a regressão como uma
mudança na direção oposta às citadas acima, embora se pode dizer que há
regressão quando:
Ocorre diminuição da variedade de comportamento;
primitivização;
Diminuição da organização de uma unidade de comportamento;
Diminuição da organização intrapessoal;
Redução da área de atividade e interesse;
Perda da distinção do nível de realidade e irrealidade.
A regressão pode ser temporária ou permanente, situacional ou estabelecida.
12. MOTIVAÇÃO E COMPORTAMENTO
Lewin conclui que é necessário que faça a distinção de dois
tipos de hábito (associação):
Necessidades – representam uma tensão (fonte de energia),
uma necessidade como a fome, que exige satisfação direta ou através de
substituição;
Executivos - não é em si uma fonte de ação, sem uma necessidade ou quase-necessidade,
o hábito “execução” não leva a ação, é equivalente a forças frenadoras
determinando um dado caminho.
Afirma Lewin que, do ponto de vista dinâmico, a chamada “associação” é um
conjunto de forças frenadoras sem possibilidades de, por si mesma, criar
uma modificação. A propriedade de provocar uma ação é característica de uma
necessidade ou quase-necessidade que pode ser representada coordenando-a a
um “sistema em tensão”.
Coube ao “associacionismo” dar os primeiros passos no
sentido de uma concepção do comportamento considerado como uma entidade
dirigida. A teoria original do associacionismo afirmava que se duas idéias
ocorrem em contigüidade, estabelece-se entre elas uma associação e sua
persistência passa a depender do número de repetições desta contigüidade
(próximo, em contato). Posteriormente, esta noção de associação de idéias
se estendeu ao comportamento em geral. No entanto, a psicologia
associacionista reagia de todas as maneiras quanto ao fato de aceitar a
noção de comportamento dirigido. Encaravam tal noção como sendo um
finalismo, coisa que o pensamento científico da época repudiava. O conceito
de causa, diziam, não se relaciona com de direção e de objetivo.
ACH argumentou corretamente que se a repetição cria hábitos,
deveria ser possível medir a força de vontade medindo o número de
repetições necessárias para anular o efeito de uma intenção de agir numa
direção diferente.
Lewin é de opinião que a hipótese associacionista é
insuficiente para explicar o efeito de intenções nas quais tanto a ocasião
quanto a ação consumatória são indeterminadas assim como no caso das
ocasiões equivalentes, etc... Uma oportunidade de elaborar uma explicação
mais conseqüente vai surgir através dos estudos sobre reassumir tarefas
interrompidas.
Salienta aqui o fato de que a intensidade da tendência a
ressunção não depende diretamente da intensidade da intenção que antecede a
atividade, mas principalmente da atitude subjetiva em direção à atividade.
Mesmo quando não há estímulo externo par a ressunção da tarefa, após sua
interrupção, a tendência a realizá-la persiste. Esse impulso existe sob a
forma de “ainda há algo a fazer” isto é, um impulso em direção ao
equilíbrio da tensão interna.
As características dinâmicas das necessidades e
quase-necessidades podem ser resumidas da seguinte maneira:
1. Uma intenção é equivalente à formação de uma
quase-necessidade, isto é, um estado de tensão cujas características são
semelhantes às das necessidades genuínas com as quais elas se relacionam;
2. A cada quase-necessidade, assim como a cada necessidade,
corresponde uma certa região do meio que possui valência positiva e que,
portanto solicita certas ações no sentido de descarregar a tensão;
3. A necessidade-tensão é a realidade primária;
4. Quando a quase-necessidade è satisfeita, as valências a
ela correspondentes desaparecem;
5. A ação consumatória pode dar lugar a várias formas de
consumação substituta;
6. A quase-necessidade criada por intenção é parte de um
complexo de regiões da personalidade, e não uma estrutura isolada.
No caso de o objetivo correspondente a uma quase necessidade
ou quase-necessidade não poder ser atingido, pode ocorrer uma satisfação
substituta. Uma das formas de sabermos qual o valor que uma atividade
possui para substituir outra é através do estudo da ressunção
(reintegração, reassumir). O valor da substituição de uma atividade é tanto
maior, quanto menor for a ressunção em relação à atividade interrompida.
A substituição tanto pode dar-se no nível de realidade como
no nível da fantasia. Se as fronteiras entre as regiões do campo não forem
muito rígidas e se dentre as regiões houver alguma que possa desempenhar a
função de substituição, esta poderá se fazer no próprio nível de realidade.
Porém se as fronteiras não forem rígidas o bastante para permitir uma
reestruturação e se não houver possibilidade de outra região ou outra
atividade propiciar a eliminação da tensão, esta poderá dar-se,
parcialmente no nível de irrealidade (sonho ou fantasia).
O espaço de vida de uma pessoa tem de ser considerado como um
campo conexo o fato de as necessidades poderem ser modificadas por
alterações que ocorram em quaisquer de suas partes: no meio, nas regiões
intrapessoais; no nível de realidade ou no de irrealidade; assim como
mudanças na estrutura cognitiva do futuro e do passado psicológico.
Psicologia Estrutural em Kurt Lewin –
Luiz Alfredo Garcia Rosa – Editora Vozes, 1972 – Rio de Janeiro.
Grupo de Formação 90 - SBDG
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